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NOTICIA

Conheça a Kalmíkia,

uma república da Rússia que

parece uma visão de Kafka

 

por Alexandre Billette
Enviado especial
para o Le Monde

O improvável viajante que pusesse os pés na pista de tarmac do aeroporto de Elista poderia acreditar num possível erro de pilotagem. O pequeno avião sobrevoou a estepe durante um bom número de minutos até aterrissar, sem que aparecesse a sombra de uma presença humana no horizonte. A única pista é sinalizada de maneira muito aproximativa, enquanto os empregados do aeroporto tiritam no interior do edifício sem calefação. Contudo, trata-se mesmo do aeroporto internacional de Elista, que foi construído conforme ao desejo do presidente da República de Kalmikia*, Kirsan Iliumjinov, o homem que dirige esta pequena república do tamanho da Bélgica, imprensada entre o efervescente Cáucaso e a cidade de Volgogrado, a ex-Stalingrado.

Há ruínas industriais por todos os lados na estrada que conduz a Elista, a capital desta república membro da Federação da Rússia. “Não há mais uma fábrica sequer que funcione na Kalmíkia desde a ascensão ao poder de Iliumjinov”, comenta num tom raivoso Pavel, um motorista de táxi que aparenta ter por volta de 40 anos. “Vejam este monta-cargas para grãos, olhem para aquela construção, tudo isso está morto já faz muito tempo”, acrescenta o motorista, que anda em ziguezague para evitar os inúmeros buracos na pista, no volante da sua pequena Lada cujo motor tosse discretamente.

Em Elista, a Rua Lênin oferece um espetáculo mais animador e, principalmente, espantoso: pequenos quiosques em forma de pagode oriental vendem não só incenso como também retratos do dalai lama, enquanto uma estátua amarela de Buda se destaca na extremidade de um parque. Na praça principal, um “kürde”, tipo de máquina de orações budista, tomou o lugar da estátua de Lênin, a qual, contudo, foi objeto de cuidados por parte das autoridades, que a mantiveram intacta ao deslocá-la para algumas dezenas de metros mais adiante.

A Kalmíkia constitui uma excentricidade cultural nesta região do sul da Rússia: expulsos do Turquestão pelo imperador chinês no século 17, os pastores calmucos são de origem mongol, falam na língua mongol e são majoritariamente de confissão budista. Após terem vagueado rumo ao oeste, atravessando a Ásia Central, eles encontraram um lugar propício nas estepes da Baixa Volga, onde acabaram se instalando, e onde, na mesma oportunidade, ganharam o seu nome: “kalmyk” significa “os que ficaram” em mongol. Os calmucos viram o seu país ser anexado pela Rússia czarista. Em 1943, muitos deles foram deportados por Stálin, até receberem a autorização para voltarem, treze anos mais tarde. Atualmente, os calmucos constituem a metade dos 300.000 habitantes da sua república, a outra metade sendo de origem russa.

Entre o busto de Lênin e a máquina de orações se ergue a horrível Mansão Branca, construída dentro do mais puro estilo soviético, que é a sede do poder da Kalmíkia e do jovem presidente Kirsan Iliumjinov. O presidente é um personagem singular: eleito em 1993 com base num programa de revitalização da cultura calmuca e com a promessa de proporcionar a aquisição de “um telefone celular para cada pastor”, este homem de negócios de 45 anos também vem a ser o presidente da Federação Internacional de Xadrez, a sua grande paixão, desde 1995. Um presidente de estilo barroco, ele garante ter sido seqüestrado por extraterrestres em 1997 e governar a Kalmíkia por meio de um campo extra-sensorial que controlaria tudo na república.

Tão logo ele assumiu as suas funções, Iliumjinov - que recusou todos os pedidos de entrevista apresentados por esta reportagem - transformou a Kalmíkia numa zona “offshore” (paraíso fiscal), e isso, com a bênção de Moscou. A partir de então, muitos foram os oligarcas da era Yeltsin (presidente da Rússia de 1991 a 1999) que passaram a utilizar Elista como uma espécie de caixa postal para as suas empresas. Eles não investiram um copeque sequer no país, mas “molharam generosamente a mão” dos membros do clã dos Iliumjinov para poderem implantar-se. Estes fartos afluxos de dinheiro constituiriam a maior parte da riqueza do presidente, que a utiliza para pôr em movimento seus projetos faraônicos.

“Na época soviética, cerca de quinze usinas estavam implantadas aqui; atualmente, o seu número é zero!”, confirma Grigori Goriaev, um antigo conselheiro do presidente para as questões culturais, que hoje se opõe ferozmente a “Kirsan”. “O orçamento da Kalmíkia é atualmente constituído, numa proporção de mais de 90%, por subvenções federais, contra 70% em 1993?. “Ele arruinou a Kalmíkia por conta dos seus projetos insensatos”, confirma Valeri Badmaev, o redator chefe da “Kalmíkia Soviética”, um jornal que, apesar do seu nome, está vinculado a um partido da oposição russa conservadora, o SPS. “Ele pretendia construir um cosmódromo (base espacial), além de estúdios de cinema e de um porto no mar Cáspio… Até o presente momento, apenas Chess City viu a luz do dia”.

A “Cidade do jogo de Xadrez” constitui o carro-chefe dos grandes projetos deste estranho personagem. Atrás das últimas fileiras de prédios soviéticos decrépitos de Elista, uma guarita sinaliza a entrada deste bairro novinho em folha, semeado de pequenas estátuas que representam as diferentes peças que compõem um tabuleiro de xadrez. O conjunto é formado por dezenas de casas de aparência luxuosa, dominadas pelo Palácio do Xadrez, o qual é um prédio de vidro e de concreto que abriga salas de jogo, onde uma centena de moleques pratica o esporte favorito do presidente: de 6 a 16 anos, o jogo de xadrez é um quesito obrigatório do programa escolar.

As ruas de Chess City são tão desertas quanto a estepe, que fica a algumas centenas de metros dali. “Vocês encontrarão alguns moradores, mas ainda há muito poucas pessoas instaladas aqui”, reconhece um dos guardas do Palácio do Xadrez. “Alguns dos proprietários são homens de negócios que passam uma parte muito maior do seu tempo em Moscou do que aqui”. Uma das residências, no que veio a ser uma espécie de cortesia do presidente calmuco, pertencia ao falecido campeão do mundo de xadrez, Bobby Fisher (1943-2008). “Só que ele nunca morou aqui”, comenta o guarda às gargalhadas. “De qualquer forma, essas casas são de péssima qualidade, o solo é friável e já aparecem rachaduras”. A construção de Chess City, que foi ordenada por Kirsan Iliumjinov com a meta de estar pronta por ocasião da Olimpíada Mundial de Xadrez de 1998, foi realizada a toque de caixa.

“A Olimpíada caracterizou o supra-sumo da megalomania de Iliumjinov”, explica Grigori Goriaev. “O ano de 1998 havia sido instituído como ‘ano da pecuária’, o único recurso que ainda está disponível na Kalmíkia. Contudo, diante da falta de fundos suficientes para a Olimpíada, o governo calmuco, que é o principal exportador de carne da república, prometeu aos criadores um prêmio por cada quilo de carne fornecido. O resultado disso foi que o rebanho calmuco passou de 3 milhões de cabeças para 300.000!”

Em seu escritório imponente, Anatoli Kozatchko, o ministro e conselheiro do presidente para as questões de pecuária, bate os pés no chão de tanta cólera. “Isto é uma inverdade, e aqueles que propagam essas mentiras são inimigos do povo!”, berra o ministro, apoplético, num repente de oratória que lembra a época soviética. “Para 300.000 habitantes, nós temos mais de 2 milhões de ovelhas, o que representa 7,5 ovelhas por habitante”, calcula o ministro enquanto mostra inúmeras fotografias feitas por ocasião da visita de Vladimir Putin na república, em 2006. Este antigo diretor de colcoz (propriedade rural coletiva típica da antiga União Soviética) dirige a filial do partido pró-Kremlin Rússia Unida na Kalmíkia.

Do lado de fora da Mansão Branca, é muito difícil encontrar partidários do presidente. O salário médio mensal é inferior a US$ 100 (cerca de R$ 270), e os empregos são raros. Quem anda pelas ruas de Elista cruza com um número reduzido de homens entre 20 e 40 anos: o êxodo é importante. “Segundo os números oficiais, mais de 50.000 pessoas deixaram a Kalmíkia no decorrer dos últimos sete anos”, diz o jornalista Valeri Badmaev. “Isso representa mais de 15% da população!”

Contudo, este presidente que costuma se deslocar no seu Rolls-Royce - outra de suas paixões - não aprecia as críticas que vêm a ser formuladas na sua república das estepes. Os jornais de oposição foram sendo fechados aos poucos, ou ainda subsistem apesar dos incontáveis obstáculos administrativos. Alguns dias antes da famosa Olimpíada de 1998, Iulia Iudina, uma jovem jornalista da Kalmíkia soviética, fora assassinada no momento em que ela estava conduzindo uma investigação sobre supostos desvios de fundos por parte de membros que integram o alto escalão do governo Iliumjinov. Os executantes, que eram conhecidos do presidente, foram presos, mas os mandantes do crime permaneceram impunes até hoje. Graças à determinação encarniçada de Valeri Badmaev, o jornal “Kalmíkia Soviética” segue sendo editada, mas a sua publicação é irregular, enquanto a redação permanece confinada a um quarto de um hotel que se encontra em péssimas condições.

Kirsan Iliumjinov sempre pôde contar com o apoio de Vladimir Putin. Desde 2004, os dirigentes das repúblicas deixaram de ser eleitos, passando a serem nomeados pelo Kremlin. Com isso, o dirigente se viu liberado da obrigação de submeter o seu mandato ao voto popular. Do dalai lama ao coronel líbio Gaddafi, o seu caderno de endereços internacional é surpreendente. Muito ligado a Saddam Hussein, ele havia sido enviado para Bagdá por Vladimir Putin dois dias antes dos primeiros bombardeios americanos de 2003, com a missão de tentar convencer o presidente iraquiano a fazer concessões diante da pressão internacional.

Após ter passado a primeira década da sua presidência percorrendo o mundo - no decorrer do ano de 1999, ela não permaneceu mais do que 18 dias na sua república -, Kirsan Iliumjinov atualmente parece querer recuperar o seu prestígio perdido, e tenta melhorar a sua imagem enfatizando a importância dos aspectos religiosos e culturais do povo calmuco.

O presidente, que tem fama de ser ateu e que não fala em calmuco, fez de 2008 o “ano da língua calmuca” - a qual é dominada corretamente por apenas 5% da população. Incapaz de resistir a um projeto grandioso, Kirsan Iliumjinov também resolveu investir altas quantias na construção do maior templo budista da Europa - cuja altura é de 64 metros. Este templo, que custou 20 milhões de euros (cerca de R$ 52 milhões) e que foi erigido numa das extremidades da Rua Lênin, vem conhecendo uma real atividade. Muitos são os fiéis que nele comparecem para rezar ou para consultar os monges que nele circulam, com o seu hábito laranja avermelhado e sua cabeça raspada.

O futuro de Kirsan Iliumjinov parece radiante, sem nenhum obstáculo em perspectiva. Por mais que o prefeito de Elista tivesse tentado tomar o lugar do poderoso líder, não teve jeito, pois Kirsan conta com o apoio de Moscou. Além disso, a posse iminente no Kremlin de Dmitri Medvedev não deveria modificar consideravelmente o elenco das lideranças regionais. O destino da Kalmíkia, por sua vez, desponta como mais incerto: exangue, debilitada por um êxodo importante, desprovida de recursos, a pequena república parece poder contar com pouquíssimos trunfos.

“Quinze anos de reinado de Kirsan conduziram a Kalmíkia à falência”, explica Gregori Goriaev. “Eu não vejo como este povo conseguirá sobreviver caso ele permanecer no poder por mais quinze anos”.

*Nota do tradutor - O nome desta república do distrito federal do sul da Rússia tem duas grafias em português (Kalmíkia no Brasil, Calmúquia em Portugal). Adotamos nesta tradução a grafia brasileira para o nome da região, mas a grafia de Portugal para os seus habitantes, os calmucos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville