Quarenta e poucos anos atrás, um jovem psicólogo
húngaro, Laszlo Polgar, tendo estudado a biografia de centenas
de pródigos e intelectuais, julgara ter descoberto a fórmula
do sucesso: intensa especialização precoce. Estava tão
seguro da tese que inclusive escrevera um livro chamado “Criando
gênios!”.
O projeto era aplicar a teoria em seus próprios filhos e assim,
teve início um dos experimentos pedagógicos mais interessantes
do século XX, e colocou novos elementos na antiga discussão:
natureza versus criação, ou seja, se a aptidão
humana (ou habilidade ou talento ou genialidade) é inata ou adquirida.
A primeira filha, Susan, nasceu em abril de 1969. Os Polgar decidiram
que o xadrez seria o instrumento ideal para testar a sua teoria, pois
é uma arte e uma ciência ao mesmo tempo e, além
disso, permite medir os resultados de uma forma objetiva. Aos 4 anos
Susan começou a aprender xadrez.
Seis meses depois, Laszlo levou Susan ao Clube de Xadrez de Budapeste.
Em um ambiente enfumaçado, cheio de homens velhos e adultos,
uma garotinha de 4 anos e meio chamou a atenção geral.
Mais ainda quando Laszlo pediu a um deles, sentado sozinho numa mesa
de jogo, que concedesse um jogo à garotinha, que mal ultrapassava
a altura da mesa de jogo.
O homem riu quando viu a desafiante. Condescendente, anuiu. E se arrependeu.
Após poucos lances, Susan estendeu a mãozinha mínima
para o cumprimento protocolar de vitória.
Em 1974, nasceu a irmã Sophia, e em 1976, a caçula Judit.
Ambas também iniciadas no xadrez muito antes de saber ler ou
escrever.
Em 1985, as três irmãs estavam presentes ao Aberto de Xadrez
de Nova York. Enquanto Susan, 16 anos, e Sophia, 11 anos, destroçavam
filas de oponentes masculinos, a caçula Judit, 9 anos, se divertia
vencendo 5 oponentes numa simultânea, jogando com os olhos vendados.
Em 1991, aos 21, Susan se tornou a primeira mulher na história
a ganhar o título de grande mestre. Judit a seguiu, ganhando
o mesmo título no mesmo ano, aos 15 anos, e alguns meses menos
do que Bobby Fisher, quando este ganhou o mesmo título.
Sophia, embora considerada pelas irmãs como a mais talentosa,
não chegou ao título de grande mestre por desinteresse
e menor empenho no xadrez que as irmãs.
Para Laszlo Polgar, a sua tese estava provada. Grandes mestres em xadrez
foram criadas, através de precoce e intenso treinamento. Talento
inato é fator irrelevante.
Mas, para muitos psicólogos e neurocientistas, pelo histórico
de realizações, não há como negar a habilidade
inata nas 3 irmãs. Mas, nesse caso, seria mera coincidência
o fato de 3 pessoas, de extraordinária habilidade inata em xadrez,
nascerem numa mesma família, cujo progenitor, ironicamente, negava
exatamente a existência ou a relevância de habilidades inatas.
Essa probabilidade é muito menor do que ganhar na Mega Sena.
Para convencer os seus detratores, Laszlo bolou um projeto mais audacioso
ainda: ele adotaria 3 meninos de países emergentes, os criaria
no mesmo esquema adotado para as filhas, e ele os tornaria grandes mestres
de xadrez. Seria uma tira-teimas espetacular. Mas, aí a condição
humana falou mais alto. Klara vetou a idéia. Afinal, a vida não
é só xadrez, e não se pode ser a mesma mãe,
trinta anos depois.
Enquanto pesquisas e discussões continuam, o que nós podemos
tirar de conclusão?
Não restam dúvidas de que a dedicação intensa
e precoce produz grandes habilidades. Quem sabe, pode até tornar
as habilidades inatas irrelevantes.
Em tempo: Klara, esposa, professora de línguas, também
ensinou bem as filhas: todas são poliglotas. Susan fala fluentemente
7 línguas.